Utilização do Ozônio como tratamento complementar em Demodex Canis (relato de caso)

A sarna demodécica canina (SDC) é uma dermatose primária causada pela presença do Demodex canis, decorrente de um quadro de imunodepressão mediada celularmente. O presente relato trata do caso de um canino portador de sarna demodécica não responsivo ao tratamento convencional, há mais de dois meses, portador de muitas lesões espalhadas pelo corpo, fruto de infecção secundária e que dificultavam a remissão da patologia de base.

Muitos fármacos têm sido utilizados no tratamento da SDC, demonstrando diferentes níveis de eficácia e ocorrência de recidivas constantes, portanto o paciente foi submetido ao tratamento com ozônio como forma complementar ao tratamento convencional, com o intuito de melhorar sua imunidade, evitar recidivas e restabelecer sua saúde dermatológica, e todos objetivos foram alcançados com sucesso após o ingresso da terapia. Em poucas sessões e num curto período de tempo, passados mais de um ano o animal permanece em ótimo estado de saúde e não apresentou recidivas à doença.

 

Iolanda Bettencourt¹; Cristiane L. F. de Toledo¹; Mariara C. S. Dias¹; Renata N. Serafim¹; Roberta P. G. Golob¹
1Médica Veterinária na ReabiVet – Medicina Preventiva e Reabilitação Animal
Autora para correspondência: Iolanda Bettencourt – contato@reabivet.com.br

 

Histórico

Recebemos para tratamento um cão macho, sem raça definida, de aproximadamente 3 anos, 16 kg, oriundo de resgate por maus tratos e por isso ainda em lar temporário, que foi diagnosticado com sarna demodécica. O animal apresentava lesões variadas espalhadas pelo corpo, principalmente na região dorsal e para isso instituímos o tratamento com o gás ozônio por diferentes vias de aplicação com o intuito de modular o sistema imunológico e cicatrizar as lesões ocasionadas por intenso prurido e infecção bacteriana secundária.

Estava sendo instituída terapia convencional via oral com amoxicilina, clavulanato de potássio, suplemento vitamínico mineral, omeprazol, ivermectina, clemastina, dipirona; por via tópica creme à base de prometazina e banhos com shampoo à base de nitrato de miconazol e gluconato de clorexidine a 20% a cada 3 dias, porém o tratamento não estava surtindo bom efeito devido à condição imunológica debilitada do animal, por isso a escolha por associar o tratamento com o gás ozônio.

 

Tratamento e Evolução

O tratamento foi realizado na frequência de 1 vez na semana, durante 7 semanas, sendo que na 5ª semana a responsável não pode comparecer e ficou 2 semanas sem vir ao tratamento, retomando-o na 7ª semana, e nessa ocasião foi dada alta ao animal, pós sessão. As vias de tratamento utilizadas e suas doses foram a sistêmica por insuflação intraretal com 13 mcg em 90 ml; e a via tópica através da aplicação da água ozonizada a 64 mcg durante 5 minutos de borbulhamento contínuo, bagging com 30 mcg por 30 minutos e óleo de girassol ozonizado. O paciente respondeu muito bem ao tratamento já na 1ª sessão, e uma das piores lesões e que estava ulcerada e muito dolorida, do lado esquerdo do dorso na região de coxofemoral, cicatrizou praticamente de forma completa já no retorno para a 2ª sessão. O prurido generalizado também foi melhorando gradativamente e já na 4ª sessão foi retirado definitivamente o colar elisabetano, o qual o paciente permanecia de forma ininterrupta há mais 2 meses. As áreas alopécicas repilaram rapidamente e na 3ª sessão não se observava mais as falhas nos pelos, estes estavam brilhantes e sedosos, indicando que os folículos pilosos haviam recuperado sua integridade e que os parasitas (ácaros e bactérias) estavam sendo controlados.

Conforme o tratamento avançava e as semanas passavam, o colega clínico foi retirando as medicações alopáticas e permanecemos somente com a ozonioterapia, ao final da 7ª semana o paciente estava completamente sem medicamentos e com a pele íntegra, então foi instituída a alta médica.

 

Discussão

Os fatores predisponentes para o surgimento da SDC, como o estresse e alimentação de baixa qualidade, já que a animal havia sido resgatado da sua condição errante recentemente, foram identificados na anamnese do presente caso (Mueller, 2004). O tratamento com o gás ozônio e suas propriedades anti-inflamatórias tem proporcionado grandes benefícios terapêuticos aos animais de companhia, dentre eles os cães. O ozônio possui atribuições como, o estímulo à produção de citocinas, síntese de anticorpos, ativação de linfócitos T, melhora da oxigenação e do metabolismo celular por meio de vasodilatação e do aumento da resposta enzimática antioxidativa, potente oxidação de compostos orgânicos e inorgânicos e como precipitante de metais pesados (VELANO, 2001; LAKE, 2004). Segundo Haddad (2009), a ozonioterapia também reduz a agregação plaquetária, além de atuar como antialérgico e antiinflamatório.

O ozônio se mostra imuno-estimulante em baixas doses e imuno-inibidor em doses mais elevadas. Este gás é capaz de estimular as defesas imunológicas, tanto celulares como humorais, em pacientes imunodeprimidos, ou de modular as respostas imunológicas exacerbadas que produzem as enfermidades autoimunes (OGUZ, 2011). As lesões de pele do paciente regrediram e cicatrizaram em torno de 10 dias com a utilização do bagging e óleo ozonizado, evidenciando a potente ação do ozônio no controle da infecção bacteriana secundária e recuperação da integridade das regiões lesionadas.

A influência da água ozonizada sobre o processo de cicatrização do epitélio também já foi estudada. Verificou-se que a aplicação diária de água ozonizada pode acelerar a velocidade de cicatrização (SEIDER, 2008).

A aplicação do óleo de girassol ozonizado nas lesões, tanto na cabeça como em todo corpo foi uma excelente escolha para o tratamento, já que este tem grande poder anti-inflamatório, analgésico e cicatrizante. Matsumoto et al. (2001) demonstraram a eficácia do óleo ozonizado aplicado em pacientes com fístulas e feridas recorrentes, apresentando cura ou remissão dos sinais e sintomas da infecção, havendo eliminação de pus, re-epitelização e fechamento das feridas.

Avaliada a cicatrização das feridas cutâneas tratadas com óleo ozonizado, pode-se concluir que a aplicação na forma tópica pode acelerar a cicatrização de feridas agudas cutâneas, promovendo a síntese de colágeno e a proliferação de fibroblastos no local da lesão e o aumento da expressão de fatores de crescimento tais como PDGF, TGF-â e VEGF (KIM, 2009).

 

Considerações finais

A boa resposta do paciente frente aos tratamentos instituídos nos incentiva a continuar estudando, e aplicando a ozonioterapia como forma de modular o sistema imune de animais debilitados e sujeitos a infecções oportunistas e parasitos que causam tanto danos sistêmicos como tópicos.

 

Referências Bibliográficas

  • Kim H.S. Therapeutic effects of topical application of ozone on acute cutaneous wound healing. J Korean Med Sci. 2009; 24(3): 368–74.
  • Matsumoto, A.; Sakurai S.; Shinriki N.; Suzuki S.; Miura T. Therapeutic effects of ozonized olive oil in the treatment of intractable fistula and wound after surgical operation. In Proceedings of the 15th Ozone World Congress, London, UK, 11th15th September 2001, Medical Therapy Conference (IOA 2001, Ed.), Speedprint MacMedia Ltd, Ealing, London, UK, p.77-84. 2001
  • Seidler V.; Linetskiy I.; Hubálková H.; Stanková H.; Smucler R.; Mazánek J. Ozone and its usage in general medicine and dentistry. A review article. Prague Med Rep. 2008; 109(1): 5-13.

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